
O interminável passar dos segundos marca-se impiedosamente nos ouvidos pelo bater meticuloso dos ponteiros no relógio. Os grandes números verdes sobressaem gritando na escuridão, reluzindo mais violentos a cada minuto que contam no painel da televisão. O arrastar mortiço do tempo, na infindável noite em que a lua não canta e a chuva não sussurra, leva ao desespero a já tão desesperada cadência sentida na almofada. O olhar nervoso, inquieto pela manhã que não chega, impaciente pelo sonho que o não invade, vagueia alerta por entre a penumbra tão clara, incapaz de se render e entregar ao conforto das pálpebras fechadas.
É neste fosco instante, perdido em momento algum, que a mente tão ágil e desperta vadia por outras demoras - o que se encerra no dia que há tanto findou, o que desvendará o dia que ainda tão longe vem… Pensamentos banais de um espírito ordinário, à procura de repouso. Quando o sono tão prontamente se adia, e a balada que o inconsciente escolhe falha em aliviar os sentidos, o consciente devaneia por jardins densamente nublados, a que o acesso se permite pelo cansaço das horas atentas.
Daí nascem as ideias que definem existências triviais, perturbações adormecidas que constroem vidas e obras. Em almas menos ávidas, a lucidez deste tempo oferece sentido a reflexões vagas, descobre respostas e questões infinitas. Almas menos ávidas, almas vulgares que almejam apenas a aceitação de um canto seu, detêm-se na sua tentativa de alcançar felicidade. Perguntam-se se a têm, questionam-se o que significa, e examinam cada fracção de si mesmas para responder ao que as abala. Deslindam relações, esquadrinham acontecimentos e estudam conversas passadas, para sempre concluir que a felicidade de ontem passou, ou ansiar que o amanha traga algo de novo.
Atinge-as, então, a verdade que ficará esquecida no intricado padrão daquele jardim que já se some. A felicidade é fugaz, e engole-as da maneira que as ondas fazem, para lentamente as libertar e deixar em arreia seca, até que novamente a água as devore. Nunca a alcançarão realmente. Será sua enquanto a segurarem com a força da vida, que não existe quando a insónia as inunda. Terão apenas de aguardar pela nova vaga que chegará pela manhã, quando o dia começa e a vida retoma o controlo da mente cansada.
Talvez aí, com as revelações à deriva no negrume, encontradas mas já sumidas, o corpo se renda ao silêncio e mergulhe no mais íntimo desconhecido que fica ainda por revelar.

céus, o desespero que as insónias despertam parece ser realmente produtivo x) quero eu dizer que o texto deliciou-me por completo :) E conseguiu passar para mim esse mesmo estado de tormento.
ResponderEliminarOh, e está fantástico o rumo que deste a todo o texto, ao focares-te depois numa análise dos nossos pensamentos e devaneios. A verdade da busca pela felicidade. Adorei como a apresentaste!
E apaixonei-me pelo encerramento, como sempre. Tens uma forma genial de no fim, não simplesmente dares o texto por terminado, mas deixares-nos com uma marca do que lemos.
gostei!
Mas que noite densa... a escuridão não assusta... nada há lá para se ter medo... a não ser nós mesmos, no escuro!
ResponderEliminarAdorei aqui... vou seguir!