
Por um momento, um claro e ínfimo momento, um reflexo nostálgico percorre-me a espinha, envolve-me o pescoço e perde-se nos meus lábios, como se o desejo continuasse lá.
A figura outrora perfeitamente delineada na minha mente é agora uma básica confusão de sombras, traços indistintos que formam o seu rosto. A memória falha, mas as suas mãos ainda percorrem o meu corpo… pelo menos nestas alturas em que a realidade encontra o sonho e a minha imaginação se encontra perdida em recordações. Enquanto repouso da minha jornada e esqueço os problemas, os portões abrem-se e os meus pensamentos voam livres pelo quarto, como nuvens fantasmagóricas que se apossam do meu espírito. Como foi possível? Como aguentei todo este tempo escondendo-o do meu consciente? Sou arrancada àquele estado pré-hipnótico quando um primeiro raio de luz, incrivelmente ténue, se lança no ar e se abre num tremendo feixe colorido e ensurdecedor. Apesar daquele último “shot”, levanto-me da cama para observar o fenómeno. Apercebo-me, enquanto observo pela janela o nocturno bailado de luz e estrondos, em que repousava o meu subconsciente. Quedo-me imóvel, inerte, totalmente insensível aos ruídos infernais dos alarmes dos automóveis e ao uivar intimidante dos lobos. Tento evitar o irrecusável, pensar nele. Dou conta da inopinável escuridão em que mergulha tudo à minha volta. Apenas a luz de “stand by” do televisor permanece inquebrável nesta noite sem lua. Silêncio. Mais uma vez, ele. Odeio ter-lhe dito que partisse, pois agora descubro que o mistério que o envolvia e que tanto me aborrecia era o que mais me atraía nele. Ainda, prefiro mantê-lo envolto em brumas, no meu jardim cujos portões só abrem quando o físico quebra e a razão vacila... e a realidade encontra o sonho.
